Os sonhos intranquilos de um Brasil moribundo


Jogadores da Alemanha comemoram durante goleada histórica contra o Brasil (Foto: Marcello Casal Jr / Agencia Brasil)
Jogadores da Alemanha comemoram goleada histórica contra o Brasil (Foto: Marcello Casal Jr / Agencia Brasil)


Quando certa manhã acordaram de sonhos intranquilos, encontraram-se em sua cama metamorfoseados num inseto monstruoso. ‘A Metamorfose’, obra de 1915 imortalizada por Franz Kafka, é o reflexo perfeito da seleção brasileira de futebol. O dia exato é amanhã, quando se completa o primeiro ano de uma efeméride esportivamente catastrófica. No dia 8 de Julho de 2014, o Brasil entrava trêmulo por um Mineirão que pulsava desconfiança. Noventa minutos mais tarde, o pesadelo ganhou forma e pairava sobre um gramado desgastado pela vergonha.

Um ano depois, involuímos. Felipão e Parreira se foram e deram lugar a Dunga, um repeteco indigesto. As vitórias contra seleções insignificantes ou em amistosos desimportantes camuflaram o que já era óbvio: o Brasil ainda dependia de Neymar como uma criança necessita de um doce para sorrir. A terceira vértebra da coluna lombar do camisa 10 estava reconstituída, mas o jogo coletivo mantinha seu paradeiro desconhecido. A Copa América trouxe à luz toda a nossa limitação estacionada como um carro velho na calçada. Pior: o descontrole emocional de Neymar deu o frouxo álibi para justificar a iminente derrota. Que veio após uma partida medíocre contra o Paraguai, selada pela eliminação na disputa de penalidades.


Dona Lúcia e suas cartinhas fabricadas não reapareceram. Dunga, que na véspera, fez piadas com escravos, usou o artificie de uma virose, não confirmada por médicos, nem mesmo pelos jogadores. O vírus era outro e até mais letal: na primeira chance de se reerguer, o Brasil foi em campo (e fora dele) um moribundo de quem as pessoas se forçam a desviar o olhar. Sem respeito , muito menos compaixão. O Brasil vestia sua própria obsolescência, representada por jogadores que agradam clubes europeus, mas que claramente perderam a confiança (e talvez o interesse) de representar o seu país.

O 7 a 1 contra a Alemanha se tornou algo maior do que um resultado vexatório; foi, a partir de então, uma rubrica do desmoronamento técnico e ético do futebol brasileiro. José Maria Marin, presidente da CBF à época, está hoje numa cela da Suíça, abandonado, temendo uma extradição para os Estados Unidos, onde seria julgado como um dos réus da investigação que desbaratou o esquema de corrupção na Fifa. O atual, Marco Polo Del Nero, parece viver sob a ameaça de se tornar culpado a qualquer momento. No Brasil, grandes clubes endividados, os parcos destaques sendo vendidos para praças que soam como ofensa, como China e Emirados Árabes. Dirigentes desesperados e batendo cabeça diante de medida provisória que renegocia mas não anula a dívida de R$ 4 bilhões com o governo.


Há alguns dias, a CBF cravou a manutenção de Dunga, mas anunciou a formação de um comitê integrado por ex- jogadores e treinadores da seleção, além de jornalistas. Por ora, nenhum nome estrangeiro na lista. Como se fôssemos autossuficientes para redescobrir o caminha da glória. A ideia não é inútil, mas reforça o atraso que escolhemos como padrão. Um ano depois do maior constrangimento protagonizado por uma seleção numa Copa do Mundo, decidimos que é hora de sentar e atacar as raízes dos problemas.

Não há qualquer convicção de que o trauma vivido levará a uma reflexão maior. O Brasil continua se apegando puramente aos resultados, ignorando os métodos e os processos. Mas os resultados inexistem e nem mesmo o sebastianismo seria capaz de resgatar o tolo otimismo. As Eliminatórias poderão ser aquele último espasmo que separa o enfermo da morte. Porque não disputar pela primeira vez na história a Copa do Mundo deixou de ser uma possibilidade absurda. Nesse primeiro aniversário de nossa tragédia particular dentro de campo, as sete velas insistem em permanecer acesas. Elas estão lá, tentando, em vão, iluminar os seus convivas. Sobraram apenas algumas bexigas já murchas, que o vento se ocupa em levar para longe, como quem busca apagar os últimos vestígios de uma festa que nunca chegou a acontecer.

Fonte: http://esportefinal.cartacapital.com.br/

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