Mesmo impopular, Temer aproveita pouco barulho à esquerda e à direita nas ruas para tocar pauta legislativa



Geraldo Magela/Agência Senado
11/7: pequeno grupo da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil foi ao Senado contra a reforma

As ruas estão silenciosas ou não fazem o barulho suficiente para barrar as reformas estruturais da era Temer, quanto mais para derrubar o presidente, alvo de denúncia por corrupção passiva. É o que observadores da cena política têm notado (leia mais abaixo), seja nos arredores do Congresso ou por capitais Brasil afora, enquanto o peemedebista avança nas pautas de interesse do Palácio do Planalto com o apoio do Congresso, seu último refúgio de governabilidade. Na última terça-feira (11), por exemplo, centrais sindicais até organizaram protestos nas cercanias do poder central em Brasília, mas enquanto a reforma trabalhista era aprovada no plenário do Senado, com ampla maioria governista (50 votos a 26), um pequeno grupo de manifestantes gritava, em vão, palavras de ordem como “ladrões de direitos” e “fora, Temer”. Através dos grandes vitrais do comitê de imprensa do Senado, instalado em uma área contígua ao plenário, a reportagem testemunhou que, enquanto as ruas gritavam com a voz rouca e quase sem potência, a caravana do Planalto passava de janelas fechadas.


As ruas permaneceram silentes até diante do fato de o governo ter liberado bilhões em emendas parlamentares e trocado mais de 20 deputados na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, com o objetivo declarado e alcançado de rejeitar parecer pela continuidade de investigações contra Temer. As pesquisas indicam, no entanto, que o desejo da população, majoritariamente, é o fim da gestão Temer. Popularidade em baixa da figura do presidente, somada à agenda legislativa de reformas também impopular, não parecer ter despertado na sociedade civil a vontade de participar do momento político do país, mesmo que o debate pegue fogo nas redes sociais. Nesse contexto, enquanto o país está longe daquele cenário que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, lideranças políticas aproveitam para ignorar demandas sociais e dão prosseguimento às pautas do governo.

Um dos espasmos de engajamento social veio do já mencionado grupo de sindicalistas que se reuniu, na última terça-feira (11), nos arredores do Senado para protestar contra a reforma trabalhista. A Frente Povo Sem Medo também havia convocado, para a tarde da última segunda-feira (10), ato contra as reformas de Temer e pela realização de eleições diretas. Apesar de ações como bonecos queimados, poucas pessoas se juntaram no vão do MASP, em São Paulo, e a manifestação não ecoou a ponto de ser ouvida em Brasília.

Já a greve geral do dia 30 de junho, a segunda convocada contra a gestão peemedebista só neste anos, também não mobilizou tantas cidades e paralisações de categorias quanto a anterior, do dia 28 de abril. Os atos convocados pelas centrais sindicais e movimentos sociais nos últimos meses também tiveram adesão menor – a exceção foi a praça de guerra em que se transformou a Esplanada dos Ministérios, em 24 de maio, que resultou no até hoje mal explicado tumulto provocado por um grupo de vândalos, instalando o caos em um protesto de sindicalistas e movimentos sociais que se desenrolava pacificamente.

Relembre:

O sussurro da ruas contrasta com o fato de que apenas 7% da população, a menor marca registrada pelo Instituto Datafolha em 28 anos, considera o governo ótimo ou bom, com avaliação em queda — na pesquisa anterior a gestão Temer tinha 9% de aprovação. Seis em cada dez brasileiros se dizem contrários à reforma trabalhista, de acordo com a pesquisa. A reforma da Previdência teve 71% de reprovação, assim como, antes, 60% foram contra a emenda constitucional que estabeleceu um teto de gastos para os próximos 20 anos.

Apatia

Na véspera da última greve geral, a reforma trabalhista passou pela Comissão de Constituição e Justiça da Senado sem problemas, por 16 votos favoráveis a 9. No dia seguinte, os sindicatos de transporte público de São Paulo, presentes sempre em manifestações do tipo, ausentaram-se do circuito. A maior manifestação aconteceu em Brasília, onde os serviços de ônibus e Metrô foram interrompidos, mas os atos de protesto passaram longe da adesão e do agito das manifestações de 24 de maio. Naquela data, os organizadores estimaram 150 mil manifestantes. A PM contou 25 mil. Na sexta-feira, 30 de junho, foram 5 mil.

Há a sensação, em alguns setores da sociedade, de que há certa apatia popular diante do cenário político atual. “Nesta agonia em que vivemos, diante desta indefinição em relação ao que será de Temer e na medida em que o Congresso volta as costas para a população, é compreensível uma incredulidade, uma apatia”, avalia o secretário-geral da Intersindical Central da Classe Trabalhadora, Edson Carneiro Índio. No entanto, ele entende como um movimento normal. “Não está fora da curva. São momentos, parte do processo e um quadro que pode mudar a qualquer hora”, diz.

Lula Marques/AGPT
Na greve geral de 30 de junho, só a PM compareceu para os protestos que não aconteceram

Índio também entende que as mobilizações seguiram uma linha crescente, produzindo um parâmetro que faz desacreditar o peso da greve do dia 30 de junho. “A greve geral cumpriu um papel importante de demonstrar o descontentamento dos trabalhadores. As reformas mexem profundamente com os direitos do povo, que está pressionando a elite política”, avalia. Em um mea culpa, ele afirma que as centrais sindicais não conseguiram traduzir, como foi feito com a reforma da Previdência, o tamanho do impacto da reforma trabalhista, com tantas alterações. “Cria um caldo para confusão.”

Agenda oculta

Professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da USP, Pablo Ortellado diz ver na esquerda e na direita uma falta de esforço em levar o povo para a rua. “A minha impressão não se trata de uma incapacidade de mobilização, mas falta de empenho”, afirma. Quanto à greve do dia 30, por exemplo, na opinião dele as lideranças sindicais deliberadamente não fizeram acontecer. “Isso faz crer que existe uma agenda oculta. Os grupos à direita apoiam as reformas explicitamente. Apesar da retórica pela saída de Temer, esse é o provável motivo pelo qual não queiram a sua queda”, analisa.

A esquerda também deve ter seus motivos, continua o acadêmico. “Manter o governo Temer pode ser vantajoso para Lula e o PT por uma série de razões. Dilma queria fazer a reforma da Previdência e queria fazer uma limitação de gastos. Essas pautas estavam na agenda do segundo governo dela. De certa maneira, quando Temer o faz de forma mais radical, fica com todo o ônus da impopularidade e o PT pode ressurgir como um redentor mais tarde”, avalia Ortellado. Além disso, a classe política também pressiona por uma solução quanto aos avanços da Operação Lava Jato e, com mais tempo de governo, seria o PMDB a ter de resolver essa questão, conclui o professor.

Escritor e assessor de movimentos sociais, Frei Betto acrescenta outros elementos à análise do dito “fracasso” da última greve geral. “Algumas centrais sindicais estão negociando com o governo para não perder o imposto sindical obrigatório e acabaram por desmobilizar parte dos atos”, lembra. Entidades mais radicais, como Conlutas e Intersindical, acusaram centrais como a Força Sindical e a UGT de esvaziarem o movimento em troca da nova contribuição sindical unificada, oferecida pelo governo e até agora não entregue – o que explicaria o fato de Laercio Oliveira (SD-SE) ter entrado na vaga de Major Oímpio (SD-SP) para votar a favor de Temer na CCJ, na vaga do partido dominado pela Força, e depois tenha votado contra o presidente.

Além disso, o movimento nas ruas não é, de acordo com Frei Betto, a totalidade das manifestações. “Existe uma modalidade de manifestação, que não significa apenas ir pra rua, como nas Diretas Já!, com Collor. Hoje nós temos as redes sociais e elas são poderoso fator de contestação, desagravo, que revela esses índices negativos”, ressalta. Frei Betto diz ainda que as redes sociais têm tido ressonância importante no momento de crise. “Temer está para cair. Não dura mais um mês.”

Desalento

O desencanto com a política é outro fator de inércia identificado por militantes anti-Temer. “O fato de as pessoas não estarem indo para as ruas tem muito a ver com a saturação diante das denúncias, do enfraquecimento do mundo da política. Isso é perigoso, pois acaba abrindo o cenário tanto para saídas conservadores como para a manutenção do que aí está”, avalia o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) Josué Rocha. A tramitação acelerada da reforma também é um dificultador para as lideranças, na opinião dele, já que não conseguem convocar atos com antecedência e, assim, organizar maior adesão.

“Essas mudanças são tão profundas que não deveriam acontecer sem debate e consulta popular. Apesar disso, o governo segue com elas. É um pacote de várias medidas simultâneas, o que torna difícil o nosso diálogo com o povo. Em segundo lugar, há uma propaganda forte do governo e de setores da direita, que tem sido feita em todos os meios de comunicação”, analisa Josué Rocha. Ainda assim, o coordenador do MTST afirma que o povo tem acompanhado as movimentações políticas. “Os últimos anos nos mostram que as ruas podem se encher a qualquer momento.”

Pato amarelo

As lideranças dos movimentos anticorrupção não chegaram a convocar grandes atos contra Temer, mesmo que em meio às delações da JBS e ainda que tenham lançado críticas ao presidente. Vereador de São Paulo pelo DEM e uma das lideranças do Movimento Brasil Livre (MBL), Fernando Holiday confirma a maior passividade dos grupos à direita nas ruas. “As acusações contra o presidente da República são gravíssimas. Mas eu não me sentiria à vontade de ir para a rua com os mesmos movimentos que fizeram a defesa da ex-presidente Dilma Rousseff. É uma questão de momento político”, afirma. Ele acredita que a união dos dois lados em atos públicos poderia beneficiar indiretamente movimentos e partidos que foram contra o impeachment de Dilma.

Ainda assim, de acordo com Holiday, os movimentos fazem a parte que lhes cabe pela saída de Temer. “Eu não acho que a falta de protestos nas ruas signifique uma falta de engajamento, não só dos movimentos que defenderam o impeachment, mas também dos de esquerda. Não necessariamente demonstram sua força somente nas ruas”, diz. As redes sociais, para ele, são um novo campo de disputa cuja participação é mais fácil e acessível às pessoas. Ele menciona a pressão feita pela saída do senador Romero Jucá (PMDB-RR) quando era ministro do Planejamento de Temer e teve áudios vazados, ou as ações articuladas contra o projeto que ficou conhecido como anistia ao caixa dois.


Holiday não deixa de reconhecer, no entanto, a força que as ruas mantém. “Hoje as ruas ainda têm um peso muito grande. O fato de ter milhares de pessoas presencialmente nas manifestações repercute. Inclusive, foi por esse meio que conseguimos o impeachment da presidente Dilma”, recorda, ainda que reafirmando que não marcharia ao lado de quem considera “hipócrita” na luta contra a corrupção.

Nessa toada, a sociedade civil fica à margem da disputa de poder. “Temer cai, mas seguramente não por mobilização popular. A sociedade civil não está jogando. O jogo está em Brasília, e quem participa é a Polícia Federal, a imprensa, o Ministério Público, os três Poderes. Não sai desse circuito institucional”, pontua o professor Pablo Ortellado. Ele ressalta ainda que as lideranças da sociedade civil são reféns da classe política e, por isso, incapazes de se mobilizar contra os interesses aos quais estão aliadas. “Assim, estamos paralisados.”

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Fonte: http://congressoemfoco.uol.com.br

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