“Como lutar para cuidar das pessoas se parte da população nos agride?”, questiona enfermeira

Bolsonaristas agridem enfermeiros em frente ao Palácio do Planalto (Reprodução)
Em depoimento à revista Veja, a enfermeira Ana Catarine Carneiro, que foi agredida na última sexta-feira (1º) durante uma homenagem aos colegas mortos na pandemia, em Brasília, diz que se sentiu “desiludida” com a violência. Ela pede ainda que a população não encare os profissionais de saúde como heróis.
A enfermeira ressalta que o ato que participou em Brasília não era um protesto, mas sim uma homenagem. “Não estávamos contra nada. Além da homenagem em si e de darmos visibilidade à nossa categoria, queríamos mostrar à população que temos as nossas dificuldades”, conta.
“Seguíamos com a nossa manifestação, pacificamente, quando, de uma hora para outra, surgiu um grupo de pessoas que apoiam o governo federal e começou a nos ofender. Primeiro, com palavrões. A certa altura, um homem decidiu atacar uma colega que estava ao meu lado, filmando tudo com o seu celular”, relata. “A partir do momento em que o tal homem encostou em mim, não tínhamos mais como manter o plano”.
Um dos responsáveis pela agressão foi o bolsonarista Renan da Silva Sena, funcionário terceirizado do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. Ele atua em uma empresa que tem um contrato com o ministério de Damares Alves no valor de R$ 20 milhões. Contudo, não aparece ou cumpre suas tarefas de trabalho desde março.
“Em casa, de volta, fui dominada por um sentimento de desilusão, de abandono. Como é possível lutar para cuidar das pessoas se parte da população nos agride? Não faz o menor sentido. Recuperei minha força com a quantidade de mensagens de apoio que recebi. Percebi que a violência vem de uma minoria”, continuou.
Heróis
No trecho final de seu depoimento, a enfermeira questiona o status de “heróis” que os profissionais de saúde ganharam em meio à pandemia do coronavírus.
“Quando vejo, pelo país afora, profissionais de saúde sendo saudados como heróis, entendo e agradeço, pois me sinto homenageada. Essa visão, porém, me preocupa, porque o herói dá conta de tudo. Nós não somos assim”, afirma.
“A população precisa ter essa compreensão. Nós a ajudamos, sim, só que precisamos também da ajuda dela. Isso acontece quando a sociedade segue as orientações de segurança para que a pandemia não avance ainda mais”, reforça.


Nenhum comentário
Postar um comentário