Direita e esquerda disputam apoio popular em mês de protestos no País

No Rio de Janeiro, cerca de 10 mil pessoas foram às ruas para protestar em abril contra o governo
No Rio de Janeiro, cerca de 10 mil pessoas foram às ruas para protestar em abril contra o governo - Tomaz Silva /Agência Brasil
Após um período de relativa calmaria nas ruas, o mês de agosto promete ser agitado no campo das disputas ideológicas no País. Em 16 de agosto, movimentos sociais de direita, apoiados pelo PSDB, voltam a levantar suas bandeiras pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Quatro dias depois é a vez de os grupos de esquerda, endossados pelo PT, bradarem contra o que chamam de tentativa de golpe protagonizada pelos conservadores brasileiros.
Os enfrentamentos desta vez acontecem em um ambiente bem menos favorável a Dilma – agravado na segunda-feira (3) pela prisão de José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil e um dos fundadores do PT. 
A situação é semelhante àquela do primeiro semestre deste ano, quando, após serem marcados protestos para pedir a saída de Dilma do Planalto, grupos como o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) convocaram atos contra o crescimento da direita no Brasil – criticando medidas do governo federal, mas também exaltando a legitimidade de sua mandatária e levantando bandeiras defendidas pelo governo, como a manutenção da atual idade penal.
Piora no cenário econômico, aumento das denúncias contra o governo e até a prisão do ex-ministro José Dirceu criam um ambiente diferente para as manifestações de agosto
Piora no cenário econômico, aumento das denúncias contra o governo e até a prisão do ex-ministro José Dirceu criam um ambiente diferente para as manifestações de agosto - Agência Brasil
A diferença, agora, é que a relação entre os partidos políticos e os manifestantes nas ruas se intensificou, com apoios anunciados abertamente após meses de ataques de um lado a outro por meio da imprensa e de discursos no Congresso Nacional.
O PSDB já convoca abertamente os insatisfeitos com o governo para irem às ruas no próximo ato anti-Dilma, algo bem diferente do que ocorrera em março e, principalmente, em abril, quando as lideranças do partido até amenizaram o discurso contra a presidente, enfraquecendo o protesto do dia 14 daquele mês.
De algumas semanas para cá, mesmo os mais cautelosos em relação à saída da petista do governo federal, como o senador Aécio Neves e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, têm feito discursos mais duros em relação ao tema. 
"Qualquer conversa não pública com o governo pareceria conchavo na tentativa de salvar o que não deve ser salvo", disse recentemente FHC em resposta às propostas de aproximação de Luíz Inácio Lula da Silva para discutir a crise do governo federal. Ao mesmo tempo, o PT afirma ver sua militância crescente e mais ativa, empenhada em barrar o que vê como uma onda conservadora no Brasil, e pede apoio de sua militância para o ato de 20 de agosto.
"A tendência é o PT se fazer presente, pois, politicamente, nossa base se identifica mais com esses movimentos em defesa dos direitos sociais e pela democracia. São grupos com DNA democrático, bem diferente do caráter golpista daqueles que, insatisfeitos e inconformados com resultado das eleições, querem derrubar a presidente a qualquer custo, sem qualquer embasamento", diz ao iG o vereador José Américo (SP), secretário nacional de comunicação do PT.
"Com bandeira ou sem bandeira do partido, vamos estar no protesto, sendo de camisa verde, amarela ou azul, mostrando a solidariedade e a identidade do PSDB com o sentimento de repulsa da sociedade brasileira em relação ao governo. O PT pode ir protestar contra o que quiser, isso só mostra o desespero de sua militância", afirma o senador suplente José Anibal, presidente do Instituto Teotônio Vilela, grupo de formação política do PSDB nacional.
Pautas confusas
A aproximação dos partidos aos movimentos é clara. Historicamente, militantes do PT são integrantes de centrais sindicais como a CUT, que ajudam a organizar o protesto de 20 de agosto. O MTST, cuja bandeira é apartidária, afirma que, mesmo tendo críticas a políticas do atual governo Dilma, o apoio do partido é bem-vindo. Políticos da sigla devem comparecer em peso, segundo a sigla. A Secretaria Nacional de Movimentos Populares do PT pressiona as lideranças para fazer uma convocação oficial para participação. 


Não é porque é um ato contra a direita que será em defesa do governo' (Guilherme Boulos, representante do MTST)
Ao mesmo tempo em que recebe o apoio petista, no entanto, o protesto atacará diversas medidas do governo, como o ajuste fiscal. "Não é porque é um ato contra a direita que será um ato em defesa do governo", ressalta Guilherme Boulos, coordenador nacional do MTST. "Vamos dar uma resposta ao ato do dia 16, protestos que gritam 'fora, Dilma' e não gritam 'fora, Cunha'. Não aceitamos golpismo, um impeachment que neste momento serviria mais aos conservadores. Mas isso não quer dizer que defenderemos um governo que prejudica os trabalhadores."
Enquanto isso, movimentos que organizam os atos pelo impeachment da presidente comemoram o fato de o PSDB ter se mobilizado em convocar a população para os protestos e pelo apoio que ganharam de muitas lideranças do tucanato pela saída de Dilma do poder. Mas, apesar de o "Fora Dilma" ser a bandeira da manifestação, o partido ainda não pedirá abertamente o processo contra a mandatária.
"Passei a dar o benefício da dúvida ao PSDB. Mesmo que nem todos os seus políticos estejam falando em impeachment, sinto que as circunstâncias acabarão os obrigando a mudar de posição", comenta Renan Santos, coordenador nacional do Movimento Brasil Livre, um dos grupos organizadores dos atos de 16 de agosto. "A necessidade do impeachment atropelou a tese de cassação desses que tem mais cautela. Deputado tem tempo, não perde o mandato do nada, mas as pessoas estão ficando desempregadas, não querem mais esperar."
Situação complicada
Enquanto esquerda e direita se acusam mutuamente de anti-democráticos e golpistas, o cientista político Alberto Carlos Almeida, professor no Instituto de Ensino e Pesquisa, analisa tudo como uma grande confusão.

Cientista político lembra que denúncias não são apenas contra o governo, mas também contra representantes da oposição, como Eduardo Cunha
Cientista político lembra que denúncias não são apenas contra o governo, mas também contra representantes da oposição, como Eduardo Cunha - Marcelo Camargo/ Agência Brasil
Ao contrário do que, por exemplo, acusam os movimentos sociais e as lideranças petistas, ele não vê o pedido de impeachment como golpista, justificando ser este um processo previsto na Constituição Federal da República. Ao mesmo tempo, acredita que, com as acusações que surgiram contra políticos de todos os partidos, o próprio pedido de saída da presidente perdeu força, pois todos em Brasília têm mostrado ter culpa no cartório. 
"Claro que o governo federal fica na linha de frente, mas as denúncias envolvem todos, inclusive o próprio Cunha. Temos até o caso emblemático do [senador] Fernando Collor de Melo, que teve aqueles carros de luxo apreendidos recentemente. Aquela máxima de que todo político é ladrão vem sendo fortalecida", analisa Carlos Almeida. 
Para o especialista, a menos que seja feita uma aliança partidária real entre os movimentos anti-Dilma e a oposição no que diz respeito à saída da presidente, provavelmente os atos devem seguir, assim como no primeiro semestre, surtindo nenhum efeito.
"O cargo de presidente é bastante protegido, é necessário um embasamento jurídico muito forte para acabar com ele, dois terços da Câmara têm de votar para abrir um processo. O que temos no momento, basicamente, é uma pressão política. Quem quer impeachment vai sempre defender o seu lado como o certo e atacar o outro; quem os acusa de golpismo e apoia o governo, faz o mesmo. Faz parte da grande disputa política."

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