ContilNet visita escolas da zona rural e constata a triste realidade das unidades de ensino no Acre


Escola na zona rural de Xapuri apresenta condições precárias/Foto: Charlton Lopes/ContilNet

Aquilo que era para ser uma referência, o que o modo petista de governar convencionou chama de inversão de prioridade, principalmente porque era a parte integrante principal da metáfora “florestania”, ou seja, a cidadania levada aos povos da floresta, tornou-se uma vergonha.

A nossa reportagem visitou três escolas estaduais na zona rural – duas na capital e a outra no município de Xapuri – e uma constatou uma realidade inconveniente, que, há mais de um século, assim foi descrita por um certo Luiz Gálvez Rodrigues de Arias: “ainda há muito a fazer pelo Acre”.

Começamos a caminhada pelo município de Xapuri, mais precisamente no Reserva Extrativista Chico Mendes, Seringal Sibéria, comunidade Semitumba. Encontramos a escola de ensino fundamental Novo Horizonte completamente deteriorada. Faltam banheiros, água potável, merenda adequada, material didático. “Isto é um absurdo. Estamos no início da reserva Chico Mendes. Nunca imaginei que, no governo do PT, crianças e adolescentes tivessem esse tratamento”, declarou, chorando, a vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, Dercy Telles.

Tentamos falar com os responsáveis pela escola, mas fomos recepcionados pela professora Alexandra Souza que, por estarmos acompanhados por sindicalistas, hostilizou- nos: “vocês estão querendo fazer confusão na nossa comunidade”, retrucou ela, devidamente contestada pela também sindicalista Deuzuite da Silva Barroso Lopes, para quem a professora está serviço do PT.

“Infelizmente essa mulher está sendo influenciada pelo Raimundão (Raimundo de Barros, primo de Chico Mendes e cargo comissionado do governo), que está ajudando a patrocinar essa nefasta politica”, devolveu a ativista.
Uma das funcionárias da escola prepara a água para consumo dos alunos/Foto: Charlton Lopes/ContilNet

Escolas na Estrada Trasacreana

A nossa reportagem pegou novamente a estrada, agora na capital, e entramos na Rodovia Trasacreana, Ramal do Neca, quilômetro 45. Depois de 12 quilômetros ramal adentro, deparamo-nos com a escola Nova Esperança. Apesar de está às margens do Riozinho do Rola, o local é de difícil acesso, não tem energia elétrica, transporte escolar, postos de saúde, material didático atualizado e a água de beber vem diretamente do manancial.

A escola está funcionando com duas turmas: do 1 ao 5 ano e outra do 6 ano, que fazem parte do programa Asas da Florestania. “Tem criança que sai às cinco horas de casa para chegar aqui a tempo. São como fossem nossos filhos porque e, apesar de todas as dificuldades, amamos o que fazemos”, declarou a professora Deisilene Silva de Souza, que mora em Rio Branco, mas passa todos os dias úteis da semana na comunidade.

A professora não esconde as dificuldades, principalmente no tocante à distorção idade série e a fixação dos conteúdos. “tem criança no 6 ano que não sabe ler e escrever”, disse ela, para quem o deslocamento e a vida adversa no campo atrapalha muito o ensino-aprendizado.

Da mesma forma que a sua colega, a professora Gigliane Gadelha de Souza também mora na capital. Em sua opinião, o principal problema da comunidade é a falta de energia elétrica. “Num sei por quê? Estamos há apenas 12 quilômetros da rede de energia”, recamou a mestra, mostrando o frezzer, o liquidificado e outros eletroeletrônicos que nunca foram utilizados. “No posso mudar o mundo, mas tento mudar a realidade daqui”, filosofou ela.
Muitas escolas do interior do Acre são improvisadas por falta de estrutura/Foto: Charlton Lopes/ContilNet

Cumaru: a escola mais isolada de Rio Branco

A Escola de Ensino Fundamental e Médio Cumaru está localizada na Colocação Cumaru, Seringal São Francisco do Iracema, na Reserva Extrativista Chico Mendes, zona rural de Rio Branco (AC). Seu único acesso se dá pelo quilômetro 75 da rodovia, para depois percorrer outro trajeto de 25 km de ramal de terra e mais 20 km a pé ou a cavalo.

Os alunos pertencem à comunidade dos seringais São Francisco do Iracema, Vai Se vê e Macapá, na Reserva Extrativista Chico Mendes, e seu entorno onde foram feitos os estudos para criação da Reserva Extrativista Riozinho do Rola. Essa comunidade vive basicamente do comércio da castanha, borracha e agricultura familiar, tendo na pesca e na caça fontes primordiais de proteína animal.

A criação de bovinos também está presente em algumas áreas, porém apenas como complemento na renda. Trata-se de uma comunidade extremamente jovem. A região conta com cinco escolas rurais de ensino fundamental.

Entretanto, a Escola Cumaru se destaca pela dedicação e trabalho do professor Francisco Barbosa Leite, pedagogo e teólogo, que transformou o local com projetos e iniciativas de gestão escolar diferenciada para áreas de floresta.

Ele construiu uma horta comunitária com os alunos, iniciou o plantio de um Sistema Agro-florestal (SAF) para abastecer a escola com apoio apenas da comunidade. Nesta horta existem espécies como acerola, café, ingá, araçá-boi, coco, limão, laranja, cupuaçu, graviola, açaí, entre outros.



Foi do professor a ideia da construção de uma biblioteca, tendo criado um material didático próprio para a comunidade, com materiais que integram a realidade local. Um alojamento provisório foi estruturado para os estudantes que moram há mais de três horas de distância e que, por este motivo, permanecem a semana toda na escola.

Atualmente o maior desafio para gestão da escola é a implementação do telecentro, que já possui os computadores armazenados desde 2012, à espera da instalação. Não foi por falta de apoio da comunidade que o espaço até hoje não foi construído, tendo em vista que ainda não há todos os equipamentos necessários para a instalação e para o fornecimento de energia, que não existe no local.

Outros desafios são a falta de valorização da carreira do magistério na área rural e o fornecimento da merenda escolar, que poderia ser feito por meio da compra de produtos locais pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) do Ministério de Desenvolvimento Social (MDS).

A escola conta com o apoio da Secretaria de Educação do Estado do Acre (SEE), entretanto a carência de recursos é grande, além da falta principalmente um projeto político-pedagógico que dê conta das especificidades do ensino formal em uma unidade de conservação.

O outro lado

A reportagem falou com a coordenadora de ensino rural da Secretaria de Estado de Educação (SEE), Alda da Silva Diógenes. No tocante à escola Nova Esperança, em Rio Branco, a gestora disse que todas as reivindicações foram encaminhadas à SEE e serão resolvidas na próxima semana. Quanto aos problemas de infraestrutura, disse que foi firmada uma parceria com a prefeitura, que já estava com maquinários na comunidade.

Quanto à escola Belo Horizonte, em Xapuri, a coordenadora afirmou que, a partir de janeiro do próximo ano, será construindo um novo pavilhão, desta feita com banheiros e bebedouros com água potável. Quanto às demais necessidades, Alda Diógenes garantiu que supridas por meio do programa Escola Sensível, que faz depósitos diretos na conta da escola.

Fonte: contilnetnoticias.com.br/

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