Dilma pode ter fora de sua base os votos necessários para escapar de impeachment

A presidente precisa assegurar 172 votos caso o processo de impedimento chegue ao Plenário da Câmara, mas não terá assegurada a adesão entre os 292 deputados da base


Apoio dos deputados será disputado no corpo a corpo
Alex Ferreira/ Câmara dos Deputados - 3.12.15
Apoio dos deputados será disputado no corpo a corpo

A estratégia do governo é derrubar o impeachment no seu nascedouro, ou seja, na comissão especial que apreciará o pedido de impedimento de presidente Dilma Rousseff. As indicação para essa comissão serão feitas na semana que vem e o PT deverá começar o trabalho de convencimento ali mesmo, deputado por deputado. Fará de tudo para evitar um embate no Plenário da Câmara.
Mas se o processo no Plenário chegar, Dilma precisará de 172 votos para salvar seu mandato, já que são necessários os votos de dois terços dos 513 deputados (342 votos) para que o processo de impeachment siga para seu julgamento final no Senado Federal. É provável que venha de partidos de fora da base os preciosos eventuais votos que a salvem diante das prováveis traições previstas dentro da base
A conta indica folga nessa tarefa, afinal os partidos da base reúnem 292 deputados (PT: 60, PMDB: 66, PP: 41, PR: 34, PDT: 18, PCdoB: 12, PRB: 20, PSD: 32 e PROS: 9). Mas aritmética simples não é a regra quando se trata de um julgamento predominantemente político. Nos próximos dias, diversos partidos reunirão suas executivas nacionais ou suas bancadas e caciques e deliberarão sobre o tema. O final de semana também servirá para o primeiro termômetro dos parlamentares com seus eleitores, nas bases. Muitos acham cedo demais para fazer qualquer projeção, mas admitem tendências nos bastidores.

Dilma busca garantir o apoio além da base do governo
Lula Marques/Agência PT - 02.12.2015
Dilma busca garantir o apoio além da base do governo

Tudo muito incipiente, mas a pressa nesse caso está na pauta de ambos os lados. Governo e oposição não querem perder tempo. Os governistas acreditam que o momento é favorável para tirar o impeachment da frente. Quanto mais tempo demorar, maior o tempo de articulação dos setores favoráveis ao impedimento da presidente, que organizarão manifestações e exercerão pressão sobre os deputados nas ruas e nas redes sociais.
A baixa popularidade de Dilma e a crise econômica são galvanizadores quase naturais para adesão a manifestações pela saída da presidente. Já a oposição acredita que iniciado o processo, não se pode deixar o ímpeto baixar sob risco de perder o momento. Os bastidores do Plenário têm de tudo.
E foi nos bastidores do Plenário, universo para lá de volátil, que o iG tentou buscar uma tendência sobre as chances de Dilma chegar aos 172 votos de que precisa para se livrar do Impeachment. De cara, a presidente sai com 60 votos, afinal quem acredita em traições dentro de seu próprio partido? Analisar os partidos da base é que revelará até que ponto o governo terá forças, ou nesse caso, chances, de sobreviver.
Meta fiscal não serve de termômetro

Quando o líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), procurou usar a aprovação da nova meta fiscal para demonstrar o potencial de abarcar votos do Planalto, fez uma cortina de fumaça. A opinião é dos deputados ouvidos pela reportagem. Isso porque, a aprovação da meta fiscal contou com a colaboração de quem não deverá defender o mandato de Dilma, dentro e fora da base. Partidos como o PMDB (66 deputados), PP (41 deputados), PSD (32 deputados) e PRB (20 deputados) não deverão fechar questão. O fechamento de questão é aquela situação em que uma vez determinada uma direção, quem votar contra pode até ser expulso da legenda.

Nas palavras de um parlamentar peemedebista, o partido além de não ter tradição em fechar questão, não fecha questão nem quando precisa defender teses de seu próprio e único interesse. É difícil mensurar o tamanho da influência do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), dentro da bancada. Cunha não está no auge de sua forma política, alvo de processo no Conselho de Ética cujo prosseguimento deve ser aprovado na próxima terça-feira (8).
Na outra ponta, atravessando toda a fragmentação que caracteriza o partido, o líder Leonardo Picciani deverá tencionar em favor do governo. Até que ponto Michel Temer atuará, também é difícil avaliar. Ninguém arrisca um número de votos nem para um lado, nem para outro.

Eduardo Cunha
Lula Marques/ Agência PT - 10.11.15
Eduardo Cunha

O PR deverá tentar fechar questão, ou tentar. A maioria do partido hoje tende a defender o governo do qual faz parte. Se houver dissidências, serão mínimas. Internamente fala-se em pelo menos 30 votos embora o plano seja garantir os 34. O PP ainda tem mágoas da perda do Ministério das Cidades, hoje sob o comando de Gilberto Kassab (PSD), mas a legenda ainda tem seu espaço na Esplanada dos Ministérios, o que exerce alguma influência em favor de Dilma em parte da bancada. A estimativa de alguns membros do PP é que o governo pode ficar com algo em torno de 20 votos.
Não só no PP, que tem em suas fileiras muitos magoados com o ex-ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, mas outros partidos da base necessitarão de muita conversa para desfazer o legado do hoje ministro da Educacão. O atual chefe da pasta responsável também pela articulação, Jaques Wagner, terá papel muito importante nesse processo. O lado bom para quem quer barrar o impeachment é que Wagner tem sido elogiado nos bastidores. Por outro lado, os elogios podem ser relativizados já que os mais maldosos dizem que seria muito difícil ele conseguir ser pior do que Mercadante na articulação política.
PDT e PROS deverão defender o mandato de Dilma. Embora o PDT em especial tenha um histórico de rebeldia, está numa maré de paz com o governo. No final de outubro chegou a se posicionar oficialmente contra o Impeachment. O PSD dificilmente deverá entregar 32 votos para Dilma. A bancada tem mágoas profundas com o governo e os focos de traição são generalizados. O líder da bancada, deputado Rogério Rosso (DF), deverá trabalhar afinado com Kassab na defesa do governo, mas seus correligionários dizem nos bastidores que ele não terá condições de impedir traições em escala imprevisível.
Independentes

Nessa equação, os partidos chamados independentes poderiam compensar as traições que o governo sofrerá em sua base. Partidos como o PSOL (5 deputados) e a Rede Sustentabilidade, de Marina Silva, (5 deputados) já se posicionaram contra o Impeachment. O recém-nascido PMB (20 deputados) tem flertado com o governo até a possibilidade de entrar para a base. Alguns deputados que aderiram ao novo partido são egressos de siglas que apoiavam o governo e não seria absurdo imaginar que alguns deles estariam dispostos a considerar a hipótese de defender Dilma.

Um partido importante nesse bloco é o PSB. Os socialistas deverão tirar um posicionamento nos próximos dias. Deverá ser convocada uma reunião extraordinária da Executiva Nacional para tratar especificamente do tema. O iG ouviu integrantes da bancada na Câmara e as posições ainda são divergentes, mas há número nada desprezível de socialistas que são contra o Impeachment. O debate terá duas vertentes, a técnica e a política. Oficialmente ninguém faz estimativas, mas reservadamente há quem arrisque que um número próximo de 15 dos 33 deputados do PSB estariam atualmente propensos a rejeitar o impedimento de Dilma.
O PSC (14 deputados), ainda que se coloque na posição de independente, tem atuado como oposição e seu líder, André Moura (SE) é um dos principais interlocutores de Cunha. Ninguém duvida que seus 14 integrantes se juntarão aos 99 deputados que a oposição contabiliza (PSDB: 53, DEM: 21, PPS: 10 e SDD: 15).
O PTB é um caso um pouco semelhante, mas com uma diferença fundamental: ainda reúne alguns parlamentares dispostos a remar na canoa de Dilma. A presidente nacional da legenda, Cristiane Brasil (RJ), filha do ex-deputado Roberto Jefferson, admite isso na página oficial do partido na internet. Portanto, Dilma pode sonhar com alguns votos entre os 25 trabalhistas.
Por fim, restam os partidos nanicos. Eles agrupam 15 deputados entre legendas pequenas e deputados sem partido (PHS: 4, PTN: 4, PEN: 2, PMN: 1, PTC:1, PTdoB: 1 e Sem partido: 2). Todos esses nanicos estão em blocos parlamentares em união com partidos da base, o que não significa alinhamento automático, mas pode facilitar a abordagem dos governistas, que não estão dispostos a desprezar 15 votos. Mas são também parlamentares que estão suscetíveis ao assédio da oposição, embora há que se admitir que quem tem a caneta sempre leva vantagem nessa disputa.
Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/

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